Havia alguns anos, um casal de médicos, ela e ele na casa dos trinta, morava num apartamento de 120 m² num andar alto de São Paulo exatamente como recebeu das mãos da construtora. Não por falta de vontade de mudar, mas porque a vida, plantões, viagens a lazer, a rotina de dois profissionais que não trabalham em casa, foi empurrando a reforma para depois. O "depois" chegou quando a filha do casal, então com quatorze anos, estava prestes a entrar no ensino médio: um momento simbólico de transição que pediu, também, uma casa que acompanhasse essa mudança. O programa era simples de enunciar e preciso de resolver: duas suítes, uma para o casal e outra para a adolescente; uma sala ampla que servisse de verdadeiro refúgio depois de dias inteiros de trabalho clínico; uma cozinha para o convívio informal do dia a dia, já que nenhum dos dois faz home office e as refeições rápidas em família importam mais do que jantares formais; e uma varanda gourmet que aproveitasse a vista de andar alto da cidade. Sem pets, sem escritório em casa, com visitas ocasionais de amigos do casal e das amigas da filha, um apartamento para uma família que recebe pouco, mas vive muito dentro de casa.
O ponto de partida do projeto foi um contraste deliberado de temperatura entre os ambientes. A sala foi tratada como área de descanso: paleta propositalmente mais escura e fria, para induzir desaceleração assim que a porta se fecha atrás de quem chega cansado do trabalho. Já a cozinha, por ser o ambiente de uso diurno e de convívio informal da família, foi resolvida em tons claros e quentes, num contraste de temperatura de cor que organiza o apartamento inteiro como uma narrativa de dois tempos do dia. A madeira eucalipto, num tom mais frio e acinzentado, tornou-se o material de amarração de todo o projeto, presente no piso da sala, no painel do lavabo, na estrutura da cabeceira da suíte do casal e no piso e esquadrias da suíte da filha. Sobre essa base, entrou uma camada de decoração mais densa do que o escritório costuma propor: tapetes de fibra natural, muitas plantas, iluminação indireta combinada a luminárias de piso e abajures, e tecido nas cabeceiras. A intenção foi clara desde o início: um apartamento acolhedor e vivido, não uma vitrine minimalista.
No lavabo, próximo à entrada e com vista franca para a sala, a escolha recaiu sobre uma cuba esculpida em bloco único de granito branco, torneira preta fosca e o mesmo tom de eucalipto do restante do apartamento revestindo o painel atrás do espelho, um cartão de visitas coerente com o que vem a seguir. A varanda gourmet foi resolvida como prolongamento direto da sala, com o mesmo piso de madeira se estendendo até a soleira, churrasqueira embutida, bancada em pedra escura para refeições rápidas e vista aberta para o horizonte da cidade ao entardecer, o tipo de programa que valoriza justamente o andar alto do imóvel. A cozinha foi desenhada como uma sequência espacial única e contínua: área de almoço, com mesa de madeira clara e cadeiras brancas sob pendente de fibra natural; área de preparo, com bancada branca corrida e equipamentos todos em acabamento inox; e lavanderia compacta ao fundo. Um raciocínio de fluxo que evita becos sem saída no dia a dia doméstico.
A suíte do casal recebeu a decoração mais autoral do projeto: boiserie cobrindo a parede de cabeceira, cabeceira estofada em tecido sobre estrutura de madeira eucalipto e criados-mudos com iluminação própria, repertório decorativo mais carregado, mas ainda assim contido. O banheiro do casal manteve a paleta neutra em tons de areia, com um detalhe técnico específico: revestimento até meia parede no restante do ambiente, mas subindo até o teto apenas dentro do box do chuveiro, um contraste proposital de altura que também resolve a durabilidade da área molhada. Já a suíte da filha exigiu um cuidado particular: nem quarto infantil, nem quarto de adulto, uma paleta pastel mais sóbria, sem elementos claramente infantis, mas com o item que ela mesma pediu no briefing e que se tornou o centro do ambiente: uma prateleira de livros embutida, bem preenchida, acima da cabeceira. O banheiro correspondente seguiu o mesmo espírito jovem, em tom pastel, com bancada em granilite, box em revestimento tipo tijolinho e torneiras em acabamento preto fosco.
O Apartamento Casulo entrega o que o nome sugere: um lugar de proteção e recomeço para uma família em transição, onde cada ambiente tem uma temperatura emocional própria, mas todos conversam entre si pela mesma madeira, pela mesma luz de fim de tarde e pelo mesmo cuidado de projeto. Uma reforma de 120 m² em São Paulo que trocou o "do jeito que veio da construtora" por uma casa desenhada, ambiente por ambiente, para o jeito real como aquela família vive.