Em Aquiraz, no litoral cearense, esta casa de veraneio de 600 m² nasceu para ser mais do que uma segunda residência: é o ponto de encontro de uma família grande, o palco das festas de fim de ano e o refúgio dos netos em feriados prolongados. Cercada por mata nativa densa, a casa não busca a vista para o mar como protagonista. Busca, em vez disso, uma relação próxima e constante com a vegetação que a envolve, deixando que a paisagem entre pela arquitetura de outras formas.
O projeto parte de uma dualidade que define o programa inteiro: equilibrar a tranquilidade que um casal de aposentados procura no dia a dia com a estrutura necessária para hospedar, com elegância, a família inteira nas grandes celebrações. Essa lógica de hospitalidade organiza a casa em duas camadas complementares, uma social generosa, pensada para múltiplas gerações ao mesmo tempo, e uma camada de serviço isolada fisicamente das áreas sociais, mantendo cozinha e lavanderia separadas do restante do programa para que, nos grandes eventos e celebrações da família, a operação da casa flua com eficiência sem competir com o espaço de convívio.
A decisão de projeto mais marcante da Casa Vento é o uso extensivo de elementos vazados: cobogós na construção, treliças na marcenaria e na escadaria que conduz ao segundo pavimento. Mais do que um recurso estético ligado à identidade nordestina, tratada aqui de forma sóbria e contemporânea, sem recorrer a clichês regionais, os vazados respondem a uma necessidade real de conforto térmico, a ventilação cruzada essencial ao clima do litoral cearense. Arquitetura civil, marcenaria e circulação vertical conversam entre si através desse mesmo princípio construtivo, criando uma identidade visual coerente do térreo ao segundo pavimento (elemento que dá nome ao projeto).
O volume se organiza em dois pavimentos, com fachadas em ripas de madeira natural e revestimento em concreto claro, aterrissando sobre um paisagismo tropical exuberante que emoldura a entrada e a lateral da casa. A garagem, coberta e integrada à volumetria, comporta quatro veículos cobertos, com espaço adicional para receber mais carros descobertos quando a movimentação de convidados exige, resposta direta à logística de receber a família grande nas datas de maior movimento. Ao fundo, a fachada se abre em uma sequência de varandas: são as cinco suítes da casa (quatro suítes mais a master, com closet separado), todas voltadas para os fundos do lote e debruçadas sobre a piscina, garantindo privacidade em relação ao fluxo de acesso e da garagem.
Internamente, o percurso começa em um hall de pé direito duplo, onde um painel vazado em treliça de madeira funciona como filtro entre os ambientes, e luminárias suspensas em fibra natural marcam a verticalidade do espaço. A escadaria que leva ao segundo pavimento repete o vocabulário vazado da fachada, com degraus ripados que deixam a luz de fim de tarde desenhar sombras projetadas no piso e nas paredes, um dos ambientes mais autorais da casa.
A sala de estar foi pensada como o centro de convívio de múltiplas gerações: um sofá modular dimensionado para dez pessoas e uma televisão embutida em marcenaria, além de uma grande estante de livros que abriga o acervo de um morador leitor voraz, complementada por poltronas de leitura reservadas a um canto mais silencioso. Em posição de destaque, uma vitrola vintage exibe uma coleção de discos de vinil, presente de família tratado aqui como peça central da composição, não como acessório escondido.
A sala de jantar reúne o gesto mais simbólico do projeto: uma mesa para quatorze pessoas, em madeira maciça clara, ladeada por uma cristaleira clássica em estilo Luís XIV, herança de casamento preservada em perfeito estado. O contraste deliberado entre a peça de família, entalhada e histórica, e a arquitetura contemporânea ao redor é o que ancora emocionalmente o ambiente, um ponto de encontro entre memória e projeto novo.
A suíte master reforça a identidade construtiva da casa através de um painel de treliça vazada como pano de fundo da cabeceira, associado a obras de arte que acompanham a curadoria pessoal dos moradores. O closet, aqui, é um ambiente separado, não apenas uma divisão vazada dentro do quarto, com varanda própria voltada para a piscina e para a mata do entorno.
Nas áreas externas, a piscina ampla, dimensionada para uso familiar, se conecta a uma área de churrasco coberta por uma pérgola ripada que ecoa os vazados da casa, ponto de encontro das tardes em família, inclusive das três companhias de quatro patas que circulam livremente pela propriedade. Já na varanda frontal, próxima à garagem, duas redes convidam à desaceleração de quem acaba de chegar, um gesto simples que resume o espírito de acolhimento de toda a Casa Vento: uma arquitetura pensada para reunir família, preservar memória e, ao mesmo tempo, responder com precisão técnica ao clima e à paisagem do litoral do Ceará.